“TUDO O QUE A BARBIE NÃO É...”

“TUDO O QUE A BARBIE NÃO É”
A Barbie é a boneca mais famosa do mundo. As nossas mães brincaram com ela, nós e as nossas filhas também. As feministas odeiam-na. Paris Hilton idolatra-a. É demasiado perfeita, demasiado asséptica, demasiado enervante. Demasiada pressão?

A Barbie não diz palavrões. A Barbie não é sacana. A Barbie não tem angústias existenciais. Nem é trocada pelo Ken. A Barbie mantém uma relação de amizade com o Ken quando terminam o namoro, ao cabo de 43 gloriosos anos. Não tem problemas de dinheiro. Não entra em competição com as irmãs (tem quatro).

Não tem cáries nos dentes. Não sonha fazer uma lipoaspiração. Não põe luvas (e se as pusesse seriam pink,é claro) para lavar a loiça. Fora isso, também não é uma pessoa normal.

Sim, sim, é anatomicamente impossível, e houve quem se desse ao trabalho de calcular a sua gordura corporal e concluir que não seria suficiente para ter menstruação. E dizer que não conseguiria manter-se de pé porque é desproporcionado o tamanho das pernas e do tronco. E que ter a cinturinha apertada daquela maneira dá direito a chilique. E que o peito assim firme e atirado, nem a Marilyn, a Ava Gardner e a Elizabeth Taylor, todas juntas, o tinham.

E que aquela elegância nem a Jackie Kennedy, a Audrey e a Grace Kelly, todas juntas, a tinham. Nada disto importa. Para a criança que fomos, a Barbie tem carteiras e sapatos muito melhores do que os da mãe. E é rica como nunca chegámos a ser (e nunca chegaremos a ser). E tem um namorado bronzeado que não ganha barriga com o passar dos anos.

Pensando bem, nós nunca seremos assim. A isso talvez se chame crescer. Deixar de acreditar no faz-de-conta. Mas houve um tempo em que a pele cor de marfim e os olhos de amiga boazinha da Barbie, faziam as nossas delícias. Houve um tempo em que todas fomos barbiescas.

Barbiescas passou a ser um adjectivo usado até para morenas. É sempre sinónimo de frivolidade, mulheres estereotipadas, burrice empedernida. Mas nós não somos mulheres barbiescas! Porque mesmo que adoremos compras e sapatos de alto, somos interessantes. Porque temos a Simone de Beauvoir ao nosso lado a garantir que a frivolidade é uma coisa importante. Porque talvez tenhamos dito, como a Barbie, que a matemática é difícil, mas depois emendámos, como ela: mas não impossível. De outro modo, como é que seríamos enfermeiras, médicas, astronautas, cientistas e todas as profissões cuja formação implica raciocínio abstracto.

E não somos estereotipadas! Somos um ser único e lutámos a vida toda para conquistar a nossa individualidade. Não está provado que brincar com a Barbie nos tenha queimado os fusíveis ou nos tenha padronizado. Está provado que com ela brincámos ao quando eu for grande, e com ela vivemos as primeiras emoções da coquetterie, da sedução, da definição territorial – esta casinha é minha, este carro é meu, por isso a tua boneca vai no banco de trás. E com a Barbie fizemos uma coisa a que pomposamente se pode chamar construção da identidade de género. Ser mulher era também ser aquilo.

O que é que a Barbie é? Glamour. Femme fatale. Musa de Dior, Marc Jacobs, Versace ou Prada. Karl Lagerfeld vestiu-a pelos seus 50 anos; mas também de Diane von Furstenberg, Anna Sui e Vera Wang. A Barbie é decidida, forte, auto confiante, corajosa, vive do sonho mas tem os pés na terra. E, por isso, o mito Barbie vive.

Sê Barbie, sê quem TU quiseres, mas deixa a tua luz brilhar! … sem medo …


(“TUDO O QUE A BARBIE NÃO É” é um artigo escrito por ANABELA MOTA RIBEIRO e publicado in REVISTA MÁXIMA em Dez2009. Foi adaptado por nós para servir um propósito. Se desejares, podes ver o artigo na íntegra em http://sub.maxima.xl.pt/1209/soc/400.shtml)

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