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LONGA VIDA ÀS RELAÇÕES…
Enquanto houver tarefas para partilhar, a relação vai continuar, sabes porquê? Respondem os especialistas…
Um estudo recente da Open University do Reino Unido admite que o segredo do “viveram felizes para sempre” possa estar em gestos como lavar a loiça ou despejar o lixo. O reinado dos jantares à luz das velas chegou ao fim. No século XXI, as relações consolidam-se todos os dias entre o avental, o aspirador e o fogão. Mas nem todos os casais se orientam pela máxima “algumas tarefas por dia e a relação agradecia”.
António e Teresa conheceram-se em Angola, não sabem bem quando – “há mais de 50 anos foi de certeza” – e não se lembram de alguma vez terem tido um jantar à luz das velas “sem ser por falta de electricidade”. Vieram de África para se casarem na Serra da Estrela, no Inverno de 1965. “Já lá vão quase 50 anos e, se alguém souber a receita, agradeço que ma expliquem”, afirma o reformado de 69 anos. A mulher, com 66 anos, resume: “Foi sempre tudo tão simples, sem segredos.”
Um grupo de investigadores da Open University partiu para o estudo Enduring Love? Couple Relationships in the 21st Century à procura da mesma resposta que António: como fazer uma relação durar? As coordenadoras da investigação, Janet Fink e Jacqui Gabb, aperceberam-se de que “os estudos académicos e profissionais mais recentes no Reino Unido concentram-se sobretudo nas causas e efeitos do fim de uma relação” e focam-se na procura desses “factores de stress”. Assim, o objectivo do estudo, publicado em Fevereiro, foi “mudar o foco da pesquisa para aquilo que mantém juntas duas pessoas, em vez dos factores que podem levar à separação”.
As meias são para dobrar a meias
O estudo envolveu 4212 britânicos, homens e mulheres, de diferentes idades, estados civis e orientações sexuais, que afirmaram dar preferência aos pequenos gestos do dia-a-dia, como partilhar as tarefas domésticas, ouvir um “obrigado” ou receber um chá quente quando já se está na cama. “Ele anda doente e não pode ajudar muito, mas antigamente apanhava-o no sofá e só o deixava em paz depois de termos dobrado as meias todas”, conta Teresa. “Era só para ela ficar contente e sempre me distraía enquanto via televisão”, remata António. Em 48 anos de casamento dobrar as meias foi a única tarefa partilhada pelo casal.
As conclusões do estudo britânico, iniciado em Setembro de 2011, parecem não se aplicar aos dois portugueses casados em meados do século passado. Teresa nunca esperou que o marido participasse activamente nas tarefas domésticas e “isso não impediu o casamento de andar”, explica. Depois de pensar um pouco, a mulher acrescenta: “Os tempos agora são outros, veja-se o caso do meu genro, que faz tanto ou mais do que a minha Manuela”.
Manuela é a única filha de Teresa e António que não emigrou, num total de quatro irmãos. Casada com João há mais de 20 anos, “não vê o casamento à antiga, como a mãe dela”, explica o marido, desempregado. “Lá em casa não há trabalhos para mulheres ou trabalhos para homens. Cada um faz o que for preciso e essa é uma das melhores coisas da nossa relação”. De facto, a distribuição de tarefas domésticas foi apontada pela maioria dos participantes no estudo como “particularmente reveladora de apreço”, ao que a investigadora Jacqui Gabb acrescenta que “todos os participantes valorizaram o tempo e a energia investidos a cozinhar.”
“Muitas vezes ele chega mais cedo a casa e faz o jantar para os dois. Se calhar é uma coisa normal... Não sei porquê, mas sinto que é bom para o nosso casamento”. Manuela desculpa-se por não conseguir explicar melhor a importância de ter uma refeição pronta à sua espera, mas sublinha que “não tem nada a ver com ter um empregado”. O estudo da Open University contemplou a dimensão de gestos como preparar uma refeição concluindo que “fazer o jantar para o parceiro pode ser visto literal ou metaforicamente como ‘alimentar’ a relação do casal.”
Os três R’s da relação: “ron, ron, ron”
Se Deus está nos detalhes, o mesmo se costuma dizer do diabo. Reparar nas coisas pequenas permite detectar até o carinho mais camuflado, mas quando a atenção é direccionada para algo menos carinhoso, podem perder-se algumas horas de sono. “No inquérito, o prazer de se estar numa relação marcou as preferências. Os participantes referiram sobretudo a partilha de momentos de humor e de riso. Por outro lado, existem as irritações diárias de quando se vive com alguém, especialmente se tem hábitos enervantes”, explica Jacqui Gabb.
“Antes até conseguia dormir, mas agora nem o posso ouvir. Mal ele liga o ‘tractor’ vou logo para o sofá”, conta Teresa, para quem barulho que o marido faz ao dormir não é muito diferente do de uma máquina agrícola – “um ron, ron, ron que não pára”. Na hora de apontar o dedo ao parceiro, o ressonar é dos primeiros na lista e não importa que seja um acto involuntário. De acordo com o estudo da Open University, fazer barulho a comer ou arrumar mal a loiça na máquina são outras das queixas mais populares.
A geração que sucede a Teresa e António também não escapa ao problema do ressonar, mas Manuela tem mais para acrescentar sobre o marido: “deixa sempre a máquina de barbear mal arrumada e, quando cozinha, consegue sujar sempre o fogão”. A viver juntos há mais de 20 anos, João continua irritar-se com o facto de haver “cabelos por toda a parte” e a não perceber “porque é que ela tem tantos frascos na banheira”.
Meses de investigação valeram aos académicos britânicos a certeza de que “o amor é um conceito escorregadio”. Fogões sujos e cabelos na almofada não serão uma ameaça para quem quer uma relação duradoura, afinal, nas conclusões do estudo lê-se a negrito: “O romance está morto. Longa vida às relações!”
(Artigo por Inês Raposo)