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| O QUE FAZER PARA NÃO DIZER AO OUTRO “O QUE FAZER ”… |
O QUE FAZER PARA NÃO DIZER AO OUTRO “O QUE FAZER ”…
Se há coisa que todos lemos ou ouvimos quase diariamente são dicas sobre “como fazer”, “como ser”, “como pensar”, “como agir”, etc. Seja no retorno de férias, em alturas festivas ou a propósito do ano novo, muitos são os títulos nos media anunciando “10 estratégias para…voltar ao trabalho, poupar mais, ajudar os seus filhos a estudar, conquistar o seu amor ou o sucesso profissional…”. Todos sabemos também que depois de os ler/ouvir ficamos na mesma! Seja porque não se aplicam à nossa vida, porque já tentámos mais de metade sem resultado, ou, principalmente, porque ninguém gosta que lhe digam o que fazer e como fazer.
No caso de comportamentos que afectam a saúde e o peso, a lista de exemplos é ainda maior. Pior, mesmo sabendo que não funcionam connosco, não resistimos a tentar “ajudar” aqueles que nos rodeiam, oferecendo dicas e soluções e lembrando-lhes as terríveis ameaças que os podem assombrar se não seguirem os nossos conselhos: “viste o que aconteceu ao teu vizinho porque não parou de comer gorduras...”, “Se não comes a sopa e a fruta também não vês televisão”. Estratégias que compreensivelmente esbarram na resistência do outro, aumentando-a até.
Não haverá nada a fazer? Aplicar-se-á a máxima (que tantas vezes ouvimos também) de que “cada um sabe de si”? Se é verdade que a melhor ajuda tem que vir de dentro, também é verdade que muitas vezes não é possível descobrir essa energia interna sem uma ajuda externa. Ser autónomo (i.e., ser volitivo, decidir por si) não tem que significar ser independente (i.e., fazer sozinho). A verdadeira questão é saber qual a ajuda externa mais útil e catalisadora de resultados. O segredo é não dizer ao outro o que fazer, mas, ainda assim, ajudá-lo a decidir o que fazer, e a fazê-lo de forma consistente.
A investigação em vários domínios (ex. no ensino, na saúde) sustenta a eficácia de algumas estratégias para ajudar o outro a descobrir energias internas para um determinado curso de acção, como inscrever-se no ginásio, comer mais frutas e vegetais, não passar tantas horas sentado, etc. Estratégias que têm três orientações de base: a sustentação e respeito pela autonomia do outro; a promoção de estrutura que possa guiar o desenvolvimento de competências; e a procura de envolvimento interpessoal positivo. De notar que estas orientações são baseadas em modelos e teorias reconhecidos e são sujeitas a regular avaliação científica.
Em relação ao suporte à autonomia, importa acima de tudo não impor cursos de acção e ainda menos controlar a sua compleição. Tal não significa “deixar andar” mas antes procurar discutir um leque de opções possíveis, sublinhando sempre a possibilidade de escolha. Não se trata de dizer, por exemplo, “come a fruta… olha que não te levantas enquanto não o fizeres” nem de “olha, não queres comer não comes” mas de “agora podemos comer pêra, maçã ou kiwi, podes escolher a que queres...”. Tão importante como oferecer escolha é discutir o porquê daquela acção, porque há-de ser importante? A este respeito nem sempre adianta falar dos motivos “racionais” para a mudança, a pessoa pode não querer saber do risco de contrair a doença Y ou Z, mas de ajudar a encontrar razões pessoais para a mesma: “O que é que X te pode trazer de positivo? Como é que te pode ajudar a atingir o que valorizas?” (“Se comer os espinafres vou ficar com mais energia” ou “ir ao ginásio deixa-me sempre mais bem disposta e a dormir melhor”). Esta última questão – encontrar razões pessoais – pode aumentar o sentimento de volição mesmo na ausência de escolha, até porque há situações em que a escolha pode não ser possível ou estar muito limitada.
Incitar ou apoiar a experimentação é sempre de encorajar (ex. desafiando, oferecendo companhia, experimentando também), permitindo a escolha baseada na realidade. Quantas vezes o “não quero ou não gosto” escondem apenas o nunca se ter experimentado. Outras tantas escondem uma insegurança de base (“Não vou ao ginásio porque acho que é só para desportistas”). Um contexto seguro e estruturante, que facilite o desenvolvimento de competências fundamentais, implica: clareza em relação às expectativas (muitas vezes, sem querer, “pintamos” um pouco a realidade, o que vai comprometer a sua replicação futura - “não vai doer nada” tem efeitos contraproducentes quando sabemos que vai doer…); consistência (é importante que os outros saibam com o que contar; nuns dias sermos demasiados críticos e noutros demasiados apoiantes pode desorientar e afastar o outro) e contingência (se há um feedback a dar é importante fazê-lo de forma sequencial à acção).
Por último, importa sublinhar que um clima positivo não tem que significar o elogio fácil e o encorajamento constante, sob pena de não serem sentidos como verdadeiros. Procurar perceber a perspectiva do outro (”o que pensas disto?”, “como é que o sentiste?”), dedicando-lhe tempo e espaço é fundamental. Substituir os julgamentos baseados no resultado pelos do processo é também uma estratégia a experimentar.
É justo terminar dizendo que mesmo que este texto não tenha sido muito bem sucedido em não dizer o que fazer, pode ter servido para lançar a reflexão acerca da forma e intuito com que se faz!
(Artigo de Marlene N. Silva - Psicóloga Clínica e Investigadora na Faculdade de Motricidade Humana, Universidade Técnica de Lisboa)

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